Brasília,

Submersa em 2004, esta cidade renasceu 50 km adiante após a construção do maior açude da América Latina


A 250 km de Fortaleza, no interior do Ceará, uma cidade tem duas versões da própria história: uma delas fica embaixo d’água. Jaguaribara foi a primeira cidade totalmente planejada do estado do Ceará, inaugurada em 25 de setembro de 2001 no Vale do Jaguaribe, a 50 km da antiga sede. O motivo dessa mudança inédita é ainda mais surpreendente: a construção do Açude Castanhão, maior reservatório de múltiplos usos da América Latina, com capacidade para 6,7 bilhões de metros cúbicos de água, submergiu dois terços do território antigo. Em 2004, as águas cobriram completamente a antiga cidade. Em 2013, quando o volume do reservatório caiu abaixo de 50%, as ruínas reapareceram: postes de energia, restos de casas e paredes de igrejas emergiram da lama seca como um museu subaquático a céu aberto. O fenômeno atrai visitantes nacionais e internacionais e transformou a nova Jaguaribara, também chamada de Capital da Tilápia, em destino turístico único no Nordeste.

Do assassinato de Tristão Gonçalves à notícia do Castanhão em 1985

A origem de Jaguaribara remonta ao final do século XVII, quando uma fazenda de criação de gado foi estabelecida no local. Em 1694, a forte resistência dos indígenas que ocupavam a região obrigou os primeiros colonos a se retirarem para as proximidades de Fortaleza. O nome do município, oficializado pelo Decreto-Lei 1.113 de 30 de dezembro de 1943, é uma referência à tribo tupi que habitava a área. Etimologicamente, Jaguaribara significa moradores do rio das onças. O município foi distrito de Jaguaretama até a Lei 3.550 de 9 de março de 1957, que promoveu Jaguaribara à categoria de município independente.

A cidade guarda um capítulo trágico da história cearense. Segundo divulgação do portal oficial da Prefeitura Municipal de Jaguaribara, foi às margens do Rio Jaguaribe, no antigo território, que Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, presidente da Confederação do Equador do Ceará, foi capturado e assassinado em 1824. Em 1924, o Instituto Histórico do Ceará ergueu um monumento ao herói no Alto dos Andrade, no Sítio Tapera, zona rural do município. Foi apenas em 1985, mais de um século depois, que a cidade recebeu a notícia que mudaria seu destino: a construção do Açude Castanhão.

Jaguaribara, Ceará // Créditos: Wikimedia Commons

A cidade que ficou embaixo d’água: 22 metros de profundidade na cota 106

A construção do Açude Castanhão selou o destino da antiga Jaguaribara. Em 1995, a cidade começou a ser afetada pelas obras. Em 2001, foi completamente demolida. Os moradores foram transferidos entre julho e agosto daquele ano para a nova sede planejada. Em 2004, as águas da barragem inundaram totalmente o antigo território, cobrindo casas, ruas, igrejas e a memória de gerações inteiras. Segundo o Diário do Nordeste, quando o reservatório atinge sua capacidade máxima na cota 106, a antiga cidade fica a 22 metros de profundidade.

O reencontro veio de forma inesperada em 2013. O nível do Castanhão vinha caindo desde 2009, quando o reservatório atingiu quase 100% da capacidade, e chegou a menos de 50% naquele ano. Foi quando os primeiros indícios da velha cidade voltaram à superfície: postes de energia elétrica sem rede e sem fios erguiam-se como sentinelas na paisagem seca. A notícia se espalhou boca a boca no Vale do Jaguaribe. Turistas nacionais e internacionais começaram a chegar por embarcações que partiam da parede do Castanhão ou pela BR-116, no quilômetro 287, seguindo por uma estrada carroçal de 18 km. As ruínas viraram monumento histórico, e hoje existem discussões para estruturar uma rota oficial de visitação.

Jaguaribara, Ceará // Créditos: Wikimedia Commons

O que fazer em Jaguaribara e no maior açude da América Latina

Nova Jaguaribara combina história recente, natureza do sertão e pesca esportiva no maior espelho d’água do Nordeste. Reserve pelo menos dois dias para o essencial e verifique o volume atual do Castanhão antes de programar a visita às ruínas.

  • Casa da Memória: espaço que reúne objetos, calculadoras, computadores, radiolas e itens religiosos resgatados da antiga cidade submersa.
  • Ruínas da Velha Jaguaribara: acesso pela BR-116 no km 287, com 18 km de estrada carroçal até o antigo território que emerge em anos de estiagem.
  • Monumento a Tristão Gonçalves: no Alto dos AndradeSítio Tapera, homenagem erguida em 1924 ao herói da Confederação do Equador.
  • Açude Castanhão: passeios de barco pelo maior reservatório de múltiplos usos da América Latina, com 6,7 bilhões de m³ de capacidade.
  • Igreja Santa Rosa de Lima: réplica da igreja original da antiga sede, construída a pedido dos moradores após a mudança.
  • Serra da Micaela: atrativo natural da região com trilhas e mirantes sobre a caatinga do Vale do Jaguaribe.
  • Pesca esportiva: passeios com pescadores locais em busca de tucunarés e tilápias que fizeram da cidade a Capital da Tilápia.

Para quem quer conhecer mais sobre Jaguaribara (CE), este vídeo do canal TV Canal do Turismo apresenta um panorama completo da cidade, que é conhecida como a primeira cidade totalmente planejada do estado.

Como é a vida na primeira cidade totalmente planejada do Ceará

Nova Jaguaribara nasceu no sertão semiárido cearense com um projeto urbanístico moderno, algo raro no interior do Ceará. As decisões do projeto foram tomadas por um colegiado que reuniu agentes públicos e representantes comunitários. O planejamento estabeleceu ruas largas, redes de esgoto tratadas, cobertura de 100% em saneamento básico e energia elétrica, hospitais e escolas de padrão moderno, além de setores específicos para comércio e desenvolvimento industrial. A localização foi escolhida estrategicamente a salvo das águas do Rio Jaguaribe.

A nova sede preservou símbolos da cidade antiga por pedido dos moradores. Réplicas da Igreja Matriz e da Igreja do Poço Comprido, antigo distrito submerso, foram erguidas no traçado urbano moderno. É a mistura entre a esperança de uma vida com infraestrutura de qualidade e a saudade dos laços afetivos com a terra inundada. Nas festas religiosas e nos eventos anuais, os antigos moradores reencontram tradições que atravessaram o deslocamento. A cidade também ganhou destaque na piscicultura, com a criação de tilápia em tanques-rede no Castanhão impulsionando a economia local e projetando o município nacionalmente.

O Açude Castanhão e os 6,7 bilhões de metros cúbicos que redesenharam o Vale

Açude Castanhão é considerado o maior reservatório para múltiplos usos da América Latina. Sozinho, ele armazena 37% de toda a capacidade dos cerca de 8 mil reservatórios do estado do Ceará. Sua capacidade de 6,7 bilhões de metros cúbicos supera de longe o antigo campeão do estado, o Açude Orós, também no Rio Jaguaribe, que comporta pouco mais da metade desse volume. Os limites geográficos do reservatório se estendem por quatro municípios cearenses: JaguaribaraAlto SantoJaguaretama e Jaguaribe.

Os primeiros estudos para a construção da barragem começaram em 1910, quando o engenheiro americano Roderic Crandall, da Universidade de Stanford e consultor da então Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), hoje Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), identificou o Boqueirão do Cunha como o local ideal para a barragem. A área tinha esse nome por ser propriedade da família Cunha, dona da Fazenda Castanhão. Hoje, o reservatório abastece a Grande Fortaleza e o Complexo Portuário do Pecém por meio do Canal da Integração, além de sustentar a agricultura irrigada, a piscicultura e a pesca esportiva.

Como é o clima e a melhor época para visitar

Jaguaribara tem clima semiárido tropical, típico do sertão cearense. As temperaturas oscilam entre 22°C nas noites de junho e 38°C nas tardes secas de outubro. A estação chuvosa concentra-se de janeiro a maio, quando o volume do Castanhão costuma subir. O período mais seco vai de junho a dezembro, com dias ensolarados que favorecem os passeios náuticos e a visualização das ruínas quando o nível está mais baixo.



Dez-Fev
23-37°C

🌤️ Média

Conheça a Casa da Memória e aproveite a pesca esportiva no Castanhão.

PESCA NO CASTANHÃO

Mar-Mai
23-33°C

☔ Alta

Clima de transição ideal para trilhas na Serra da Micaela e passeios de barco.

SERRA DA MICAELA

Jun-Ago
22-35°C

☀️ Baixa

Melhor época! Nível do reservatório baixo permite ver as ruínas submersas.

RUÍNAS SUBMERSAS

Set-Nov
24-38°C

☀️ Baixa

Visite o Monumento a Tristão Gonçalves e a histórica Igreja Santa Rosa.

HISTÓRIA LOCAL



Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Para chegar de Fortaleza, os 250 km são cobertos pela BR-116, com trajeto médio de três horas e meia. De Juazeiro do Norte são cerca de 280 km pela mesma rodovia. O Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, é a principal porta aérea. Ônibus intermunicipais conectam a rodoviária de Fortaleza a Nova Jaguaribara com saídas diárias.

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Suba a BR-116 e visite a cidade que voltou à tona

Jaguaribara guarda um capítulo raro da história brasileira, onde uma cidade inteira desapareceu debaixo d’água para dar lugar ao maior reservatório de múltiplos usos da América Latina, ressurgiu 12 anos depois quando o Castanhão secou e se reinventou como a primeira cidade totalmente planejada do Ceará. Poucos destinos combinam ruínas subaquáticas que emergem em anos de estiagem, um monumento erguido em 1924 a um herói da Confederação do Equador e uma Capital da Tilápia nascida no sertão semiárido.



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