Brasília,

Ruínas seculares e uma moderna base de foguetes: o destino maranhense que une passado e futuro


Poucos municípios do mundo conseguem reunir, no mesmo território, um pelourinho do século XVIII, uma igreja matriz que nunca ganhou telhado e um espaçoporto ativo. Alcântara, no Maranhão, foi fundada em 1648 sobre a antiga aldeia tupinambá de Tapuitapera, virou uma das cidades mais ricas do Brasil colonial e hoje guarda cerca de 400 imóveis de valor histórico numa faixa de terra que também abriga o Centro de Lançamento de Alcântara, base de foguetes mais próxima da Linha do Equador em todo o continente americano. Do outro lado da Baía de São Marcos, a 32 km de São Luís, a vila oferece um dos contrastes urbanos mais improváveis do país.

Como Alcântara ficou tão rica no ciclo do algodão?

A antiga aldeia tupinambá foi ocupada por portugueses em 1648, quando se ergueu a Vila de Santo Antônio de Alcântara. Nas décadas seguintes, a região se firmou como um dos principais polos de engenhos de açúcar, sal e algodão do Norte do Brasil. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a aristocracia rural agroexportadora do algodão fez com que a cidade vivesse um longo período de ascensão econômica ao lado da prosperidade de todo o estado do Maranhão.

Os filhos das famílias mais ricas eram enviados a Coimbra, em Portugal, e a outros centros universitários europeus. O regresso trazia influência arquitetônica que moldou palacetes, igrejas e fontes. Segundo o IPHAN, o tombamento se justificou pela existência de um importante conjunto da arquitetura colonial luso-brasileira, consolidado ao longo do século XVII. A abolição da escravidão e o fim do ciclo algodoeiro, na segunda metade do século XIX, esvaziaram a cidade e paralisaram no tempo o casario.

Alcântara, Maranhão // Créditos: Wikimedia Commons

Por que a Igreja Matriz de São Matias nunca ganhou telhado?

No século XIX, correu na região o rumor de que Dom Pedro II visitaria Alcântara. A elite local, ainda em resquício de riqueza, começou a erguer edifícios monumentais para receber o imperador, entre eles um palácio imperial e a nova Igreja Matriz de São Matias. A visita nunca aconteceu, e a crise financeira que se seguiu à derrocada do algodão interrompeu as obras. As paredes laterais em pedra e cal ficaram de pé, mas o teto nunca foi colocado.

Hoje, o céu maranhense entra pelo vão aberto do templo e funciona como cobertura natural. As Ruínas da Igreja Matriz de São Matias, na Praça da Matriz, viraram um dos cartões-postais mais fotografados da cidade. Ao lado ficam as Ruínas do Palácio Negro, também inacabadas, símbolos da cidade que enriqueceu rápido e empobreceu ainda mais rápido.

Alcântara, Maranhão // Créditos: Wikimedia Commons

O que é o pelourinho mais bem conservado do Brasil?

Também na Praça da Matriz, o pelourinho de Alcântara foi talhado em pedra de lioz vinda de Portugal e ainda mantém no topo as armas da coroa portuguesa em relevo. É considerado o pelourinho colonial mais bem preservado do país. O objeto era o símbolo do poder das autoridades locais e do castigo público a escravizados, e sua permanência intacta é rara mesmo entre as cidades históricas brasileiras.

A conservação do pelourinho ajudou a definir o valor patrimonial do centro histórico. Alcântara foi tombada pelo IPHAN em 29 de dezembro de 1948, sob o processo 390-T-1948, e recebeu o título de Cidade Monumento Nacional por decreto do mesmo ano. Foi a primeira cidade maranhense a receber essa proteção.

Como o Centro de Lançamento de Alcântara virou o mais estratégico das Américas?

A 20 km do centro histórico, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) começou a operar em 1989, sob administração da Força Aérea Brasileira (FAB) e integração com a Agência Espacial Brasileira (AEB). A escolha do local não foi política: foi geográfica. A base opera a cerca de 2°18′ de latitude Sul, a posição mais próxima da Linha do Equador entre todas as bases de lançamento das Américas.

Quanto mais próximo do Equador, mais o foguete se beneficia da velocidade de rotação da Terra na direção da órbita, o que permite lançar cargas com menos combustível. Esse ganho técnico coloca o CLA em uma categoria compartilhada apenas com o Centro Espacial da Guiana, em Kourou, na Guiana Francesa. Segundo o IPHAN, o mesmo município reúne o conjunto arquitetônico tombado em 1948 e o espaçoporto da AEB, uma combinação sem paralelo no país.

O que ver no centro histórico de Alcântara?

Ruas de pedra, sobrados com fachadas de azulejo português e conventos colônias marcam o passeio a pé pelo centro. Confira os principais pontos:

  • Ruínas da Igreja Matriz de São Matias: obra inacabada do século XIX, com paredes sem telhado emoldurando o céu.
  • Pelourinho: colocado na Praça da Matriz em pedra de lioz, considerado o mais bem preservado do Brasil.
  • Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo: fundada em 1665 pelos Carmelitas Calçados, em frente à Praça da Matriz.
  • Casa da Câmara e Cadeia: sede administrativa colonial, com escadaria e balcão originais.
  • Museu Histórico e Artístico de Alcântara: acervo com objetos coloniais, azulejos e mobiliário do ciclo do algodão.
  • Casa do Divino: espaço da tradicional Festa do Divino Espírito Santo, uma das mais antigas do país.
  • Ilha do Livramento: praia considerada uma das mais bonitas do município, com acesso por barco.

Este vídeo do canal DEVA NO AR, com 67 mil visualizações, apresenta um vlog detalhado sobre Alcântara (Maranhão), uma cidade histórica rica em ruínas, arquitetura colonial e memórias do período imperial brasileiro.

Qual a melhor época para visitar Alcântara?

O clima equatorial litorâneo entrega temperaturas altas e umidade elevada o ano inteiro, com duas estações definidas pela chuva. Confira abaixo as médias das estações:



Dez-Fev
24-31°C

☔ Alta

Temperaturas elevadas ideais para visitar o Museu Histórico e o centro de compras.

MUSEU HISTÓRICO

Mar-Mai
24-30°C

☔ Muito alta

Período de chuvas intensas propício para conhecer as igrejas coloniais e a Casa do Divino.

IGREJAS COLONIAIS

Jun-Ago
24-32°C

☀️ Baixa

Ideal! Época de menor incidência de chuvas perfeita para explorar as Ruínas da Matriz e a Ilha do Livramento.

RUÍNAS DA MATRIZ

Set-Nov
24-33°C

☀️ Muito baixa

Dias quentes e secos excelentes para belos passeios de barco e curtir as praias.

PASSEIOS DE BARCO



Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Alcântara?

O acesso mais comum é por barco a partir de São Luís. Embarcações regulares saem do Cais da Praia Grande, no centro histórico da capital, com travessia de cerca de 1h20 pela Baía de São Marcos. Também é possível chegar por rodovia, em trajeto mais longo, com passagem por balsa em Cujupe. O Aeroporto Internacional Marechal Cunha Machado, em São Luís, é o principal ponto de chegada aéreo para quem parte de outros estados.

Leia também: A cidade mineira que esconde o maior dinossauro do país e acaba de virar um tesouro mundial

Um mapa único no mundo: pedra colonial e foguete no mesmo município

Poucos lugares no planeta conseguem reunir, dentro dos mesmos limites municipais, um pelourinho colonial em pedra de lioz do século XVIII e um espaçoporto em operação. Alcântara nasceu no ciclo do algodão, enriqueceu com engenhos e desabou quando o algodão americano tomou o mercado europeu depois da abolição. As ruínas ficaram, o pelourinho ficou, e a geografia se encarregou de conectar essa herança do passado a um centro que aproveita a rotação da Terra para lançar foguetes.

Na escala humana, dois séculos entre uma igreja sem telhado e um foguete que decola parecem uma distância enorme; em Alcântara, é justamente essa distância que faz o mapa do município ser um dos mais improváveis do Brasil.



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