Brasília,

Com 55 km sobre e sob o mar, esta travessia troca pontes por um túnel no meio do caminho e reduziu uma viagem a cerca de 40 minutos


No meio do Canal de Lingdingyang, seis faixas de rodovia suspensas sobre pilares de concreto afundam abruptamente em direção a uma rampa de concreto armado situada no centro de uma ilha oval de 100 mil metros quadrados, desaparecendo sob 44 metros de lâmina d’água salgada antes que qualquer embarcação de grande porte intercepte a trajetória dos veículos.

🌉

Sistema Estrutural HíbridoA travessia de 55 km integra 22,9 km de viadutos marítimos contínuos, 3 pontes estaiadas, duas ilhas artificiais e 6,7 km de túnel submarino imerso.

Túnel Imerso sob Pressão HidrostáticaComposto por 33 elementos pré-moldados de 80 mil toneladas cada, o duto submarino utiliza a própria pressão da água para comprimir juntas elastoméricas GINA e vedar a estrutura.

🏗️

Volume de Aço e Resistência ExtremaConsumiu mais de 420 mil toneladas de aço estrutural para suportar terremotos de magnitude 8, tufões de vento superior a 300 km/h e impactos navais de 300 mil toneladas.

⏱️

Eficiência Logística RegionalReduziu a rota terrestre entre Hong Kong, Zhuhai e Macau de 160 km (4 horas e meia de percurso) para apenas 45 minutos de tráfego direto.

O Delta do Rio das Pérolas concentra mais de 68 milhões de habitantes e abriga um dos complexos portuários e industriais mais densos do planeta. Historicamente, o braço marítimo de Lingdingyang impunha um contorno rodoviário de 160 km pelo norte, estrangulando o fluxo de cargas e passageiros entre a margem leste britânica e a margem oeste portuguesa e continental.

Após as devoluções territoriais de Hong Kong em 1997 e de Macau em 1999, a integração física da chamada Grande Baía tornou-se prioridade de infraestrutura. No entanto, erguer pilares convencionais ao longo de toda a extensão era inviável: a hidrovia registra a passagem de mais de 4.000 embarcações comerciais por dia, ao mesmo tempo em que a aproximação das pistas do Aeroporto Internacional de Hong Kong (HKIA) impunha tetos altimétricos rígidos para guindastes e mastros estaiados.

Detalhe em macro da junta de vedação elastomérica GINA e parafusos de aço de alta resistência em estrutura de túnel imerso.
Junta elastomérica GINA comprimida pela pressão da água para garantir a estanqueidade absoluta do túnel submarino — Créditos: Imagem gerada por IA

Como 33 elementos de 80 mil toneladas foram selados no leito marinho sob 44 metros de pressão hidrostática?

Para cruzar o canal de navegação profunda sem interferir no calado de superpetroleiros nem violar os cones de aproximação aérea, os projetistas adotaram o método do túnel imerso. Em vez de perfurar o solo com tuneladoras convencionais (TBM), a equipe escavou uma trincheira subaquática regularizada com brita e instalou 33 módulos ocos pré-fabricados de concreto armado protendido.

Cada segmento unitário mede aproximadamente 180 metros de comprimento, 38 metros de largura e 11,4 metros de altura, deslocando cerca de 80 mil toneladas — massa equivalente à de um porta-aviões militar. Fabricados em doca seca na Ilha de Guishan, os blocos receberam anteparas provisórias estanques para flutuar até o alinhamento definitivo, rebocados por barcaças de posicionamento dinâmico assistidas por receptores GNSS e sonares de alta frequência.

Quais restrições de tráfego de 4.000 navios e do aeroporto forçaram a rota sob o canal de Lingdingyang?

A escolha do perfil estrutural misto resultou de um conflito tridimensional entre logística marítima e aviação civil documentado em relatórios técnicos do Highways Department de Hong Kong. Um vão estaiado com gabarito náutico suficiente para porta-contêineres de 300 mil toneladas exigiria torres superiores a 200 metros de altura, violando o cone de proteção de voo da pista sul do HKIA.

A resposta foi segmentar os 55 km de extensão total em subsistemas funcionais adaptados a cada restrição física do estuário, garantindo a continuidade do tráfego rodoviário sem bloquear as rotas comerciais existentes.

Parâmetros de Projeto da Megaestrutura

📐

ESPECIFICAÇÃO TÉCNICA

Seção Subterrânea Imersa

Duto submerso de 6,7 km assentado a até 44 metros de profundidade, dividido em 33 galerias duplas estanques dimensionadas para vazão de tráfego de 100 km/h.

🏛️

NORMA/ÓRGÃO

Diretrizes do HZMB Authority

Engenharia gerenciada conjuntamente por Hong Kong, Guangdong e Macau, estabelecendo requisitos de vida útil de 120 anos contra cloretos marinhos agressivos.

🌊

DESAFIO ESTRUTURAL

Sismos e Cargas Meteorológicas

Estrutura dimensionada para absorver abalos sísmicos de magnitude 8 e suportar ventos de tufão nível 16 sem deslocamento plástico dos apoios.

De que forma 120 cilindros gigantescos de aço ergueram as ilhas artificiais sem dragagem maciça?

A transição entre os viadutos aéreos e o túnel exigiu a construção de duas ilhas artificiais em pleno mar aberto. No método convencional, a criação de aterros offshore requer a dragagem de milhões de metros cúbicos de lodo marinho mole para evitar recalques diferenciais futuros, processo que geraria plumas densas de sedimentos em suspensão com severo impacto à população do golfinho-branco-chinês (Sousa chinensis).

A equipe geotécnica optou por uma solução não intrusiva: cravar 120 células cilíndricas de aço de parede fina diretamente na argila marinha. Cada cilindro possui 22 metros de diâmetro, altura equivalente a um prédio de 17 andares (cerca de 50 metros) e peso unitário de 500 toneladas. Martelos vibratórios hidráulicos sincronizados cravaram as camisas metálicas em formação contínua em apenas sete meses.







Critério Técnico Método Convencional (Dragagem) Solução HZMB (Cilindros de Aço)
🏗️ Prazo de Execução da Ilha 24 a 36 meses 7 meses (120 cilindros cravados)
🌊 Perturbação de Sedimentos Remoção de > 8 milhões de m³ de lodo Cravação direta sem dragagem periférica
⚓ Controle de Recalque Diferencial Adensamento lento com alto risco pós-obra Contenção lateral rígida em anel metálico

O que permitiu à megaestrutura marítima resistir a tufões de nível 16 e impactos navais de 300 mil toneladas?

As fundações da seção em viaduto enfrentam forças hidrodinâmicas contínuas combinadas com empuxo de ventos de monção. Cada pilar assenta sobre grupos de estacas escavadas com diâmetros entre 2,5 e 2,8 metros, embutidas dezenas de metros abaixo do fundo marinho até atingirem rocha basáltica sã.

Para desacoplar as oscilações sísmicas da superestrutura, os pilares receberam apoiadores elastoméricos com núcleo de chumbo (LRB). Esses aparelhos de apoio dissipam a aceleração lateral convertendo energia mecânica em deformação plástica controlada, garantindo estabilidade global mesmo sob abalos de magnitude 8 ou colisão tangencial com embarcações desgarradas.

Abaixo, um vídeo do canal especializado The B1M (YouTube) detalha o processo executivo, as complexidades logísticas e os desafios de engenharia que permitiram erguer a travessia oceânica:


Por que a vida útil de 120 anos exigiu parâmetros superiores aos do Eurocode e das normas NBR?

Enquanto normas estruturais internacionais como a Eurocode 2 e a brasileira ABNT NBR 6118 adotam convencionalmente 50 anos como horizonte de projeto para edificações correntes e 100 anos para obras de arte especiais de grande porte (como na ABNT NBR 7187), o consórcio do HZMB fixou o requisito em 120 anos sem intervenções profundas.

O ambiente marítimo subtropical do sul da China é severo devido à alta salinidade, temperatura elevada e ciclos contínuos de umedecimento e secagem. A corrosão das armaduras por penetração de íons cloreto representava a ameaça terminal. Para combatê-la, as misturas de concreto de alto desempenho (classes C45 e C55) incorporaram aditivos superplastificantes, sílica ativa e cinzas volantes, reduzindo a porosidade capilar e elevando a resistividade elétrica da massa cimentícia a níveis até então inéditos em obras costeiras.

Tríptico vertical mostrando cravação de cilindros de aço no mar, descida de módulo de túnel imerso e pistas em operação dentro da galeria subterrânea.
Etapas construtivas da travessia: criação das ilhas de aço, afundamento dos módulos de 80 mil toneladas e rodovia submarina concluída — Créditos: Imagem gerada por IA

Quando a manutenção de megaestruturas marítimas exige engenheiros geotécnicos e especialistas em corrosão por cloretos?

A integridade de uma ligação submarina de grande porte não se encerra na entrega da obra. O monitoramento contínuo exige equipes permanentes de engenheiros geotécnicos e engenheiros patologistas de estruturas munidos de sensores de fibra óptica embutidos nas juntas de dilatação, células de pressão intersticial e estações geodésicas automatizadas.

Qualquer anomalia que indique recalque diferencial superior a milímetros entre os módulos imersos, variação anormal de tensão nos cabos de protensão externa ou indícios de despassivação da armadura metálica demanda intervenções imediatas de injeção de resinas poliuretânicas e proteção catódica por corrente impressa conduzidas por consultores certificados em corrosão marinha.

Com um custo consolidado que ultrapassou os US$ 18,8 bilhões e quase uma década de execução entre 2009 e 2018, a travessia Hong Kong-Zhuhai-Macau redefiniu os limites da geotecnia marinha e do concreto submerso, comprovando que barreiras geográficas extremas são vencidas pelo casamento entre hidrodinâmica precisa e integridade material rigorosa.

⚠️

Contexto importante: Este artigo é informativo. Para projetos estruturais locais similares, recomenda-se avaliação de engenheiro civil especializado em pontes, túneis e geotecnia marinha, especialmente em contextos de risco de recalque diferencial, infiltração ou impacto ambiental em corpos hídricos.



Super Esportes