{"id":32676,"date":"2026-07-08T04:34:58","date_gmt":"2026-07-08T07:34:58","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioalagoas.com.br\/?p=32676"},"modified":"2026-07-08T04:34:58","modified_gmt":"2026-07-08T07:34:58","slug":"o-mito-que-ninguem-conhece-a-bandeira-de-portugal-quase-foi-azul-e-branca-em-1910","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioalagoas.com.br\/?p=32676","title":{"rendered":"O mito que ningu\u00e9m conhece: a bandeira de Portugal quase foi azul e branca em 1910"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Quando a Rep\u00fablica foi proclamada, em 5 de outubro de 1910, uma pergunta inc\u00f4moda surgiu antes mesmo de se assentar a poeira revolucion\u00e1ria: que bandeira representaria o novo regime? A maioria dos portugueses assume que o verde e rubro nasceram naquele instante \u2014 mas a verdade \u00e9 mais estranha do que se ensina nas escolas.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que todos pensam: que a bandeira republicana de Portugal foi aclamada sem resist\u00eancia<\/h2>\n<p>Existe uma cren\u00e7a generalizada de que a substitui\u00e7\u00e3o do azul e branco mon\u00e1rquico pelo verde e rubro republicano foi um processo natural, quase autom\u00e1tico. A vers\u00e3o que circula nos manuais escolares simplifica o epis\u00f3dio: a Rep\u00fablica precisava de um s\u00edmbolo novo, escolheram as cores da <strong>Carbon\u00e1ria<\/strong>, e pronto. O sangue vertido pelos her\u00f3is e a esperan\u00e7a no futuro bastavam como justifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acontece que essa narrativa esconde uma batalha surda travada nos bastidores da <strong>Assembleia Nacional Constituinte<\/strong>. Entre outubro de 1910 e junho de 1911, Portugal esteve mais perto do que se imagina de manter as cores da monarquia \u2014 ou de adotar um desenho que nada tinha a ver com o estandarte que hoje tremula nos edif\u00edcios p\u00fablicos.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os dados que ningu\u00e9m conhece: a comiss\u00e3o que quase devolveu o azul \u00e0 bandeira<\/h2>\n<p>Uma comiss\u00e3o nomeada pelo Governo Provis\u00f3rio, com figuras como o pintor <strong>Columbano Bordalo Pinheiro<\/strong> e o jornalista <strong>Jo\u00e3o Chagas<\/strong>, analisou dezenas de propostas. Um dos projetos mais s\u00e9rios mantinha o azul e branco \u2014 mas trocava a coroa real por um barrete fr\u00edgio, s\u00edmbolo da liberdade republicana. Outro sugeria uma bandeira inteiramente vermelha, com uma estrela dourada ao centro, evocando o internacionalismo socialista.<\/p>\n<p>Documentos oficiais da \u00e9poca, depositados no <strong>Arquivo Nacional da Torre do Tombo<\/strong>, revelam que a comiss\u00e3o esteve dividida. Havia quem temesse que o verde e rubro \u2014 cores do <strong>Partido Republicano Portugu\u00eas<\/strong> \u2014 fossem vistos como partid\u00e1rios demais, e n\u00e3o como s\u00edmbolo de toda a na\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o final s\u00f3 foi tomada em 29 de novembro de 1910, ap\u00f3s intensos debates.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.uai.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/download-2026-07-07T144738.750-1024x576.png\" alt=\"O mito que ningu\u00e9m conhece: a bandeira de Portugal quase foi azul e branca em 1910\" class=\"wp-image-152916\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A bandeira de Portugal quase manteve o azul e branco da monarquia<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A verdade desmentida: por que o verde e rubro venceram \u2014 e n\u00e3o foi pelo sangue dos m\u00e1rtires<\/h2>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o oficial \u2014 verde da esperan\u00e7a, rubro do sangue \u2014 foi uma constru\u00e7\u00e3o <em>a posteriori<\/em>, costurada para dar solenidade ao que foi, na pr\u00e1tica, uma vit\u00f3ria pol\u00edtica da ala mais radical do republicanismo. A <strong>Carbon\u00e1ria<\/strong>, organiza\u00e7\u00e3o secreta que armou a revolta, imp\u00f4s as suas cores como afirma\u00e7\u00e3o de poder dentro do novo regime. N\u00e3o foi uma escolha popular, nem um consenso alargado.<\/p>\n<p>O poeta <strong>Guerra Junqueiro<\/strong> chegou a lamentar, em carta a um amigo, que a nova bandeira fosse \u201cdemasiado carbon\u00e1ria e pouco portuguesa\u201d. At\u00e9 <strong>Te\u00f3filo Braga<\/strong>, presidente do Governo Provis\u00f3rio, hesitou antes de assinar o decreto que oficializava o s\u00edmbolo. A 1 de dezembro de 1910, Dia da Restaura\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, a bandeira verde e rubra foi hasteada pela primeira vez \u2014 mas n\u00e3o com a unanimidade que os livros de hist\u00f3ria sugerem.<\/p>\n<div class=\"rdp-cards-wrapper\">\n<p>Saiba mais sobre essa bandeira<\/p>\n<div class=\"rdp-cards-grid\">\n<div class=\"rdp-cards-item\">\n      <span class=\"rdp-cards-emoji\">\ud83d\udcc5<\/span><\/p>\n<p>Adotada em 1911<\/p>\n<p class=\"rdp-cards-item-desc\">A bandeira verde e rubra foi oficializada pelo decreto de 19 de junho de 1911, oito meses ap\u00f3s a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u2014 e n\u00e3o no calor dos acontecimentos.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"rdp-cards-item\">\n      <span class=\"rdp-cards-emoji\">\ud83d\udcdc<\/span><\/p>\n<p>A proposta preterida<\/p>\n<p class=\"rdp-cards-item-desc\">Um dos projetos s\u00e9rios mantinha o azul e branco da monarquia, substituindo apenas a coroa real por um barrete fr\u00edgio \u2014 s\u00edmbolo cl\u00e1ssico da liberdade republicana.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"rdp-cards-item\">\n      <span class=\"rdp-cards-emoji\">\ud83c\udfdb\ufe0f<\/span><\/p>\n<p>Decis\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o popular<\/p>\n<p class=\"rdp-cards-item-desc\">A Carbon\u00e1ria, organiza\u00e7\u00e3o secreta que liderou a revolta, imp\u00f4s suas cores como afirma\u00e7\u00e3o de poder \u2014 um ato mais pol\u00edtico do que simb\u00f3lico.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que o mito da escolha consensual persistiu durante mais de um s\u00e9culo<\/h2>\n<p>O <strong>Estado Novo<\/strong>, regime autorit\u00e1rio que governou Portugal entre 1933 e 1974, nunca se interessou por reabrir o debate sobre a bandeira \u2014 afinal, o verde e rubro j\u00e1 estavam consolidados e qualquer questionamento seria visto como instabilidade. A historiografia oficial, controlada pelo regime, repetiu a vers\u00e3o romantizada nos manuais escolares, fixando-a no imagin\u00e1rio colectivo.<\/p>\n<p>Com a <strong>Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos<\/strong>, em 1974, a bandeira tornou-se s\u00edmbolo da liberdade recuperada e a sua origem deixou de ser questionada. Os portugueses abra\u00e7aram o verde e rubro como se sempre tivessem sido essas as cores da na\u00e7\u00e3o \u2014 e o mito da unanimidade cristalizou-se como verdade hist\u00f3rica.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.uai.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/download-2026-07-07T144742.690-1024x576.png\" alt=\"O mito que ningu\u00e9m conhece: a bandeira de Portugal quase foi azul e branca em 1910\" class=\"wp-image-152917\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Documentos oficiais revelam que a escolha das cores n\u00e3o foi um consenso<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As consequ\u00eancias de saber a verdade: o que a bandeira revela sobre identidade nacional<\/h2>\n<p>Saber que a bandeira portuguesa quase foi azul e branca \u2014 ou inteiramente vermelha \u2014 obriga a uma releitura do que significa \u201cidentidade nacional\u201d. N\u00e3o se trata de uma ess\u00eancia imut\u00e1vel, mas de uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, fruto de disputas, compromissos e at\u00e9 de golpes de for\u00e7a. As cores que hoje parecem naturais foram, na verdade, uma escolha entre muitas \u2014 e uma escolha que poderia ter sido diferente.<\/p>\n<p>A bandeira de Portugal pertence \u00e0 hist\u00f3ria visual das <strong>bandeiras do mundo<\/strong> como um caso raro de s\u00edmbolo que nasceu de uma revolu\u00e7\u00e3o, mas que carrega consigo os ecos das op\u00e7\u00f5es que ficaram pelo caminho. Conhecer essas alternativas n\u00e3o enfraquece o s\u00edmbolo \u2014 pelo contr\u00e1rio, d\u00e1-lhe a densidade de uma decis\u00e3o humana, e n\u00e3o de um destino inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p><!-- CONTENT END 1 --><\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uai.com.br\/diversao\/2026\/07\/08\/o-mito-que-ninguem-conhece-a-bandeira-de-portugal-quase-foi-azul-e-branca-em-1910\/\">Super Esportes<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a Rep\u00fablica foi proclamada, em 5 de outubro de 1910, uma pergunta inc\u00f4moda surgiu antes mesmo de se assentar a poeira revolucion\u00e1ria: que bandeira representaria o novo regime? A maioria dos portugueses assume que o verde e rubro nasceram naquele instante \u2014 mas a verdade \u00e9 mais estranha do que se ensina nas escolas. 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