Oficial do Hamas diz que "ninguém tem ideia" de quantos reféns israelenses ainda estão vivos

O destino dos 120 reféns restantes em Gaza é crucial para qualquer acordo para encerrar o prolongado e sangrento conflito entre Israel e Hamas.

Foto: Agência Brasil - EBC

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O destino dos 120 reféns restantes em Gaza é crucial para qualquer acordo para encerrar o prolongado e sangrento conflito entre Israel e Hamas. Mas um alto oficial do Hamas disse à CNN que “ninguém tem ideia” de quantos deles estão vivos, e que qualquer acordo para liberá-los deve incluir garantias de um cessar-fogo permanente e a retirada completa das forças israelenses de Gaza.

Em uma entrevista à CNN, o porta-voz do Hamas e membro do bureau político, Osama Hamdan, ofereceu uma visão sobre a posição do grupo militante nas conversas estagnadas sobre o cessar-fogo, uma opinião sobre se o Hamas se arrepende de sua decisão de atacar Israel, dado o crescente número de mortos palestinos, e um comentário sobre o vazamento, no início desta semana, de mensagens de seu chefe em Gaza, Yahya Sinwar, o homem que se acredita ser o principal tomador de decisões em qualquer acordo de paz.

Os EUA acreditam que o Hamas detém a chave para as negociações. “A negociação tem que parar”, disse o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, à NBC na quinta-feira, urgindo Sinwar a acabar com a guerra. “Ele está relativamente seguro no subsolo; as pessoas que ele afirma representar estão sofrendo todos os dias.”

Falando à CNN na capital libanesa Beirute, Hamdan disse que a última proposta na mesa – um plano israelense que foi anunciado publicamente pelo presidente dos EUA, Joe Biden, no final do mês passado – não atendia às demandas do grupo para o fim da guerra.

Hamdan disse à CNN que o Hamas precisava de “uma posição clara de Israel para aceitar o cessar-fogo, uma retirada completa de Gaza, e deixar os palestinos determinarem seu futuro por si mesmos, a reconstrução, o [levantamento] do cerco… e estamos prontos para falar sobre um acordo justo sobre a troca de prisioneiros.”

As negociações sobre a proposta apoiada pelos EUA se intensificaram nos últimos dias, mas parecem ter parado na quarta-feira (12), depois que o Hamas apresentou sua resposta ao documento, 12 dias após recebê-lo pela primeira vez.

Blinken expressou frustração com o que ele disse ser a decisão do Hamas de apresentar “numerosas mudanças”, descrevendo algumas delas como indo “além das posições que o Hamas havia tomado anteriormente.”

“Algumas das mudanças são viáveis. Outras não são”, disse Blinken em uma coletiva de imprensa em Doha na quarta-feira.

O plano de cessar-fogo apoiado pelos EUA, que foi aprovado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas na segunda-feira (10), estabelece uma abordagem faseada. Na primeira fase, haveria um cessar-fogo de seis semanas, no qual alguns reféns seriam trocados por prisioneiros palestinos e o exército israelense se retiraria das áreas povoadas em Gaza. A segunda fase – um fim permanente da guerra e a retirada completa de Israel de Gaza – só seria implementada após novas negociações entre as duas partes.

Mas Hamdan disse à CNN que a duração do cessar-fogo era uma questão crucial para o Hamas, que está preocupado com a possibilidade de Israel não ter intenção de cumprir a segunda fase do acordo. O fim das hostilidades deve ser permanente, disse ele, e Israel deve se retirar completamente de Gaza.

"Os israelenses querem o cessar-fogo apenas por seis semanas e depois querem voltar à luta, o que acho que os americanos, até agora, não conseguiram convencer os israelenses a aceitar [um cessar-fogo permanente]", disse ele, acrescentando que acredita que os EUA precisam convencer Israel a aceitar um cessar-fogo permanente como parte do acordo.

Israel ainda não se comprometeu publicamente com o acordo, embora a Casa Branca tenha repetidamente enfatizado que era um plano israelense que o governo havia aceitado. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que tem sido pressionado a anunciar seu apoio ao plano atual, disse repetidamente que a guerra não terminará até que Israel elimine o Hamas.

Blinken disse à NBC que Netanyahu “reconfirmou” a ele “que Israel apoiava esta proposta e estava pronto para dizer sim” quando o viu alguns dias atrás, e colocou a culpa pelo impasse nas negociações inteiramente no Hamas.

"O Hamas tem que demonstrar que também quer que isso termine. Se quiser, podemos acabar com isso. Se não quiser, significa que deseja que a guerra continue", disse Blinken.

Questão de responsabilidade

Falando à CNN em um escritório modesto decorado com um grande mapa de Gaza e uma foto panorâmica da Cúpula da Rocha em Jerusalém, Hamdan repetidamente desviou qualquer pergunta sobre o papel do Hamas no sofrimento dos palestinos em Gaza. Ele chamou os ataques terroristas de 7 de outubro, que desencadearam a atual guerra em Gaza, de "uma reação contra a ocupação".

O ataque de 7 de outubro foi o mais mortal na história de Israel. O Hamas e outros grupos armados palestinos mataram mais de 1.200 pessoas, principalmente civis, e também levaram cerca de 250 pessoas como reféns para Gaza.

Israel foi rápido em retaliar, declarando imediatamente guerra ao Hamas e lançando uma intensa campanha de bombardeio seguida por uma invasão terrestre várias semanas depois.

Essa operação teve um impacto devastador nos palestinos de Gaza. Mais de 37.000 pessoas foram mortas, a maioria delas mulheres e crianças, de acordo com o Ministério da Saúde na Faixa de Gaza. Estima-se que cerca de 90% das pessoas que vivem no território foram deslocadas pelos combates.

Enquanto as autoridades de Gaza não distinguem entre baixas entre civis e combatentes do Hamas, um porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) admitiu anteriormente que a maioria dos mortos na operação eram civis.

Questionado repetidamente pela CNN se o Hamas se arrependia de sua decisão de atacar Israel, Hamdan respondeu culpando Israel pela situação e dizendo que o ataque foi "uma reação contra a ocupação".

"Aquele que é responsável por isso é [a ocupação israelense]. Se você resistir à ocupação, [eles] irão matá-lo; se você não resistir à ocupação, [eles] também irão matá-lo e deportá-lo de seu país. Então, o que devemos fazer, apenas esperar?", disse ele.

Hamdan também considerou falsos os relatos de que Sinwar sugeria que as mortes de milhares de palestinos eram "sacrifícios necessários".

Sinwar não foi visto em público desde os ataques de 7 de outubro. Acredita-se que ele esteja se escondendo em Gaza, em algum lugar dentro da rede de túneis que corre por baixo da faixa. Ele foi designado como terrorista pelos EUA, pela União Europeia, pelo Reino Unido e por outros países.

Israel repetidamente acusou o Hamas de usar civis em Gaza como escudos humanos, e no início desta semana, o Wall Street Journal publicou o que dizia serem mensagens vazadas de Sinwar para outros líderes do Hamas, nas quais ele supostamente expressava uma determinação inflexível de continuar lutando, independentemente do custo humano.

Hamdan disse à CNN que as mensagens "eram falsas".

"Foram mensagens falsas feitas por alguém que não é palestino e foram enviadas ao Wall Street Journal como parte da pressão contra o Hamas e para provocar o povo contra o líder", disse ele, sem fornecer evidências. "Ninguém pode aceitar a morte dos palestinos, de seu próprio povo."

Destruindo o Hamas?

Quando Israel lançou sua guerra contra o Hamas, Netanyahu disse que os objetivos eram “destruir o Hamas e trazer de volta os reféns mantidos em Gaza.”

Mas, mais de oito meses depois, o objetivo de eliminar completamente o grupo parece inatingível. Embora as IDF tenham matado alguns comandantes do Hamas, a liderança superior em Gaza, incluindo Sinwar, continua a escapar. E, apesar dos danos causados à sua infraestrutura, o Hamas continua a disparar foguetes em direção a Israel, embora de forma muito mais esporádica do que no início do conflito.

Oficiais de inteligência americanos acreditam que Sinwar provavelmente acredita que o Hamas pode sobreviver à tentativa de Israel de destruí-lo.

Ao mesmo tempo, Netanyahu está sob crescente pressão para alcançar um acordo que garanta o retorno dos reféns restantes em Gaza. Israel acredita que mais de 70 dos mais de 100 reféns que ainda estão em Gaza estão vivos.

Falando à CNN, Hamdan disse que não sabia quantos ainda estavam vivos. "Não tenho ideia sobre isso. Ninguém tem ideia sobre isso", disse ele, alegando – sem fornecer nenhuma evidência – que a operação israelense para libertar quatro dos reféns no sábado resultou na morte de três outros, incluindo um cidadão americano.

Há temores de que mais reféns possam estar mortos do que se sabe publicamente. Em abril, o Hamas disse a mediadores internacionais que não conseguiu cumprir a exigência de Israel de libertar 40 dos reféns restantes na primeira fase de um acordo, incluindo todas as mulheres, bem como homens doentes e idosos, porque não tinha 40 reféns vivos que correspondessem a esses critérios para libertação.

Questionado sobre o testemunho de um médico que tratou os reféns libertados e disse que eles sofreram abuso mental e físico e eram espancados a cada hora, Hamdan novamente culpou Israel por seu sofrimento.

"Acredito que se eles têm problemas mentais, isso se deve ao que Israel tem feito em Gaza. Porque [ninguém pode] suportar o que Israel está fazendo, bombardeando todos os dias, matando civis, matando mulheres e crianças… eles viram isso [com] seus próprios olhos", disse ele, acrescentando que comparar imagens dos reféns tiradas antes e depois dos oito meses de cativeiro mostra "que eles estavam melhor do que antes" – uma alegação que é demonstravelmente falsa.